domingo, 11 de abril de 2021

 

Ter escrito o livro “A gente se vê por aí!” me rendeu tantas histórias... Sim, é verdade! Além das aventuras do próprio livro, aconteceram alguns fatos inusitados, talvez, até incríveis. Algumas delas, enquanto ainda estava escrevendo o livro e outras depois de ter sido lançado. Aí vai mais uma, eu adoro esta história em particular:

 

 

UMA HISTÓRIA INCRÍVEL EM MYKONOS

 

 

Fazia calor, muito calor, ninguém saía, era hora de descansar de tarde, todo mundo no quarto com ar-condicionado. Mas, de alguma forma, eu não queria desperdiçar esse tempo dormindo. Eu estava em Mykonos, na ilha grega mais incrível de todas. Eu havia vivido experiências inesquecíveis naquele lugar no verão de 1984.

Daí, percebi que o ano era 2014, e era agosto. Eu estava em Mykonos exatamente trinta anos atrás, talvez naquele mesmo dia. Aquela viagem foi o maior feito da minha vida. Eu precisava resgatar algo daquele passado. Mas agora eu estou a trabalho, está calor...

 Daí imaginei que, naquela época, não existia calor que me impedisse de pôr em prática alguma ideia que tivesse. Eu era atrevido, destemido, ousado e, por isso, tive tantas histórias que renderam o livro “A gente se vê por aí!”, de 500 páginas. Mas, eu não era mais aquele menino. Eu estava trabalhando como guia, meus passageiros e eu iríamos nos reunir às 19h no lobby do hotel para ir embora de Mykonos. Só que eram 15 horas, eu tinha quatro horas para dormir, ou procurar a pensão onde eu havia me hospedado em 1984. Era a primeira vez que meu hotel ficava nesta direção da ilha. Era minha chance de procurar a famosa pensão e fazer história novamente, ou, ao menos, reviver aquela história.

Dei um pulo da cama e fui me vestir.

– Posso estar mais velho, mas meu espírito aventureiro me acompanha, talvez um pouco mais comedido, mais responsável, mas a vontade de descobrir supera de longe o medo de sair da minha área de conforto. Vamos em frente! Vamos ver se acho, ou não, a tal pensão! E lá fui eu, sem nenhuma informação, apenas com a foto na varanda do meu livro. Lembrei-me que o mais marcante daquela pensão era que, lá do alto, eu adorava observar a cidade ao longe, comendo queijo feta (incluído na diária) e bebendo cerveja.

Eu sabia que estava perto, mas não imaginava que estivesse tão perto. Mostrei a foto ao pessoal da recepção e a resposta foi unânime. Era por ali, mas ninguém sabia onde exatamente era a casa.

Não queria perder mais tempo e saí. Eu estava focado, ansioso, precisava encontrar a casa e não tinha muito tempo. No caminho, meu astral deu uma caída. Imaginei, que, mesmo que eu a encontrasse, talvez não fosse mais uma pensão, talvez tivesse mudado de dono, talvez nem existisse mais a casa em si, afinal, já haviam se passado trinta anos. Mas isso eram apenas conjecturas. Eu tinha que tentar.

Caminhei por uns quinze minutos, virei uma curva e, ao longe, deu para ver a cidade, era muito parecido. Eu devia estar muito perto. Era por ali. Caminhei um pouco mais, daí me lembrei de que, na época, eu subia por uma trilha na montanha para chegar à casa e, em vez de olhar um pouco para cima como estava fazendo, olhei lá no alto, e vi uma casa que se parecia com a pensão. Era muito alto. Será? Claro que não existia mais a tal trilha, certamente agora deveria haver uma estrada para chegar lá. Daí, pensei, e fiquei rindo de mim mesmo. Só com 22 anos eu subiria uma trilha na montanha tão alta para ganhar um queijo de graça. Ha! Ha! Ha!

Voltei a calcular, não tinha direito a errar. O tempo era curto e, mesmo subindo por estrada, seria uma subida dura e cansativa, então, não poderia me dar ao luxo de chegar lá, ver que não era, descer e recomeçar a busca pela pensão. O calor estava insuportável. Fiz todos os cálculos, talvez tivessem mudado a varanda, ou a cor da madeira, mas aquela parecia ser a casa, a posição na montanha, tudo se encaixava. Não tive dúvidas. “É lá!”, pensei, confiante.

Então, falei comigo mesmo:

– Eu vou conseguir chegar na mesma varanda. A casa existe ainda. Será uma grande homenagem aos trinta anos do maior feito da minha vida, minha viagem à Europa em 1984.

Saí caminhando, subindo a montanha pela estrada. Só que aconteceu um fato estranho: um carro parou do meu lado e um cara perguntou:

– Aonde você vai?

Eu estava tão envolvido na história que resolvi contar a verdade:

– Eu sou brasileiro e estive aqui há trinta anos, na última casa.

Aí eu mostrei a foto do livro.

– Eu queria ver se a pessoa que me chamou para eu me hospedar em sua pensão ainda está lá. Queria ver se esta varanda ainda existe.

O rapaz, então, disse:

– Suba e pare no hotel butique no lado esquerdo da rua. O recepcionista Themistoklis vai te esperar com uma cerveja gelada.

Não entendi muito bem, mas não me importei, segui meu caminho. E não é que o tal Themistoklis estava me esperando na porta de um hotel. Na verdade, ele não me pediu para entrar, ele mandou. Obedeci, sem questionar. Estava muito quente.

O hotel era gracioso, com uma piscina linda. Voltei a contar a história. Ele estava muito interessado, pediu meu livro e mostrou a outras pessoas. Tomei uma cerveja, daí quis ir embora, perguntei quanto era e me disseram que não custava nada.

A última casa era próxima, uns 200 metros mais acima, mas havia outras casas no meio. Era estranho, as pessoas ficavam me observando. Parecia que eu estava sendo vigiado o tempo todo, como se todos soubessem da minha presença. Era uma mistura de sensações, um pouco de medo, um pouco de surpresa. Eu era o centro das atenções, mas estava inseguro. Eu não sabia o que estava acontecendo.

Cheguei à casa, o portão era enorme, totalmente diferente do que eu me lembrava.

Toquei a campainha, veio uma moça, eu diria, com uns 35 anos e me pediu para entrar. Os mistérios continuavam. Sem dizer nada, ela me levou para dentro da casa, por pequenas escadas, diferentes níveis, sobe de cá, desce de lá. Eu tentava me lembrar de algo, mas não consegui e, de repente, chegamos numa varanda.

Aí eu me emocionei: era a minha varanda, era a varanda que eu lembrava, sem tirar nem pôr. Ali eu esqueci tudo que estava acontecendo. “Eu consegui!”, pensei. Não sabia como tudo iria terminar, mas eu havia conseguido, eu estava na mesma varanda de trinta anos atrás. Isso é incrível! Eu não podia acreditar. Era o máximo, nada havia mudado. Reconheci a vista da praia em frente, da cidade ao longe.

Olhei para baixo e falei comigo mesmo:

– Joriam, você era louco aos 22 anos. Subir esta montanha por uma trilha, é loucura, mas graças à sua maluquice, aqui está você fazendo história novamente. Isto é sensacional!

Pouco depois, a moça voltou com uma cadeira, uma cerveja e disse que Dona Marina logo estaria ali. Difícil de acreditar, eram muitas lembranças juntas. Pedi a ela que tirasse muitas fotos, com cerveja, sem cerveja, sentado na cadeira, imitando a foto antiga. Foi um momento de êxtase.

Logo Dona Marina chegou sorrindo. Ela estava feliz, extasiada. Parecia ser a mesma pessoa que me convenceu a ficar em sua pensão havia trinta anos. Eu não tinha certeza, afinal trinta anos são trinta anos. Ela me abraçou, eu estava emocionado. Como era possível? Ela parecia me reconhecer. Não era possível, ela parecia ter certeza de que eu fui seu hóspede, como se ela lembrasse de todos os hóspedes que ela convenceu a ir para a sua pensão.

Sentamos no sofá. Ela cercada por duas adolescentes lindas, suas netas. Daí em diante, a conversa ficou entre as meninas traduzindo para ela em grego e traduzindo em inglês para mim. A princípio, contei o que estava acontecendo, o porquê da minha visita. Quando ela tomou a palavra, foi só emoção e lágrimas.

– Sr. Joriam, você é a prova de que eu estava certa. Numa época em que ser pescador ou dono de restaurante era o que todos almejavam, eu acreditei no turismo, e buscava turistas no porto. Assim como para você, eu não podia contar sobre a trilha. Se contasse, ninguém viria, mas eu convencia as pessoas e compensava com amor e queijo. E, pouco a pouco, fui fazendo a pensão crescer, com muitas dificuldades, fui aumentando a casa para receber mais e mais pessoas. Sabe a pensão onde o Sr. bebeu uma cerveja na subida? É do filho do meu irmão. Sabe aqueles dois rapazes que falaram com você, de carro? São meus netos. Todas essas casas próximas a mim são hotéis e são da família, que começou com a minha pensão. Você é a prova viva de que eu estava certa, quando todos diziam que eu era louca em transformar uma casa pobre no alto da montanha numa pensão para turistas.

– Dona Marina eu amei a sua pensão, como a senhora nos abordou no porto, como viemos e ficamos cheio de poeira dos outros carros na estrada de terra, hoje asfaltada. Eu conto tudo o que me aconteceu neste livro.

Eu o entreguei a ela, que começou a chorar.

– Obrigado, meu rapaz. Obrigado por me mostrar que valeu a pena.

De repente, ela se levantou, disse algo para as meninas e saiu da sala. Eu não sabia o que fazer. “Será que eu disse algo errado?”, pensei.

Ela voltou, me pegou pela mão, me levou até um carro e saímos. Ela foi apontando:

– Esta casa hoje é da minha prima. Esta pensão é da minha irmã, mas quem cuida é o genro dela.

Então, chegamos ao ponto mais alto. Havia uma construção que não estava terminada. Parecia uma igreja ortodoxa. Entramos. Ela estava em fase final, quase pronta.

Então, em tom solene, ela disse:

– Esta é a capela para toda a família se lembrar de que tudo o que conseguimos foi graças ao Senhor. Ele tem que ter o que temos de melhor e esta é a vista mais linda de todas.

Eu rezei, agradeci todo o carinho. “Será que eu merecia tanto assim?”, pensei.

Voltamos para a casa, então, ela me deu um quadro de Mykonos, pintado por um dos filhos, me deu uma garrafa de “Ouzo”, bebida típica da Grécia, me deu um livro sobre Mykonos e disse:

– Você foi o maior presente deste ano. Você é a prova viva de que meu trabalho deu certo. Obrigada.

Abracei-a e comecei a chorar junto com ela, imaginando que ela já fazia parte das histórias mais legais da minha vida e agora uma nova história me ligava a esta mulher. Uma nova história incrível. Agradeci também à vida por ter me feito tão aventureiro e não ter deixado a preguiça me vencer e ter me feito sair de casa em busca de uma história sem pé nem cabeça.

Mas era hora de partir, disse a ela que precisava ir embora, logo iria para Atenas.

Dona Marina não teve dúvidas. Chamou um neto qualquer (rsrsrsrs) e pediu-lhe para me levar ao hotel. Era pertinho, em dez minutos estávamos lá.

Assim que desci do carro, o rapaz me disse:

– Obrigado por ter feito minha avó tão feliz...

 

Agradeço a empresa Transmundi, que confiou seus passageiros para eu guia-los para esta maravilhosa viagem.

Agradeço também a empresa Mykonos room, hoje em dia cuida da pensão com a mais maravilhosa varanda na ilha de Mykonos. Miss you...


Fantástica varanda em Mykonos em 1984
Fantástica varanda em Mykonos em 2014
Fantástica comparação das varandas 
A capela ortodoxa da família da Dona Marina
Dona Marina e suas netas
Lá está a pensão, em 1984 eu subia por uma trilha até a pensão.
Dona Marina e eu, obrigado por tanta emoção.