Eu tinha que
voltar para casa e viva a VARIG
Ontem estava de papo com meu amigo Rubinho quando começamos
a falar da Varig, afinal no dia seguinte iria ter mais uma confraternização dos
ex-comissários da Varig no Shelter bar. Era uma galera que jamais se separou, mesmo passados oito
anos da falência o povo continuava juntos, tínhamos um carinho pelo outro inexplicável,
era apenas porque sabíamos que éramos especiais somente porque trabalhamos na
mesma empresa. Isto já era suficiente para garantirmos que esta
outra pessoa, era muito legal.
Daí lembramos de um fato que prova o porque que a Varig não
era uma empresa normal, era uma empresa família, era a mãe Varig.
Durante a Copa do Mundo da Alemanha em 2006, eu estava de
férias e junto com o Rubinho seguíamos o Brasil onde quer que fosse jogar e
aproveitávamos os intervalos de jogos e conhecíamos diferentes pontos da Europa.
Estávamos em Munique e no dia seguinte estava combinado que iríamos dar uma
chegada em Budapest, porem depois de passear o dia todo chegamos na casa do meu
primo onde estávamos hospedados e a esposa dele, veio avisar:
- Joriam soube hoje que a Varig está em processo final de falência,
vocês vieram de Varig certo????
- Claro, eu trabalho na empresa vim de GC, como a gente fala.
Eu te aconselho a verificar, estão falando em não mais voar
e que este é o último voo que vai vir para Alemanha.
Saí telefonando para vários amigos comissários, até mesmo
comandantes e a resposta apesar de diferentes, todos acreditavam que a empresa
poderia parar a qualquer momento e que sim, talvez o voo do dia seguinte seria o
último da Varig para Alemanha.
Não podia acreditar, não sabia se me desesperava pela
situação em que me encontrava, sem saber se iria conseguir voltar para o Brasil
ou se me desesperava por perder um emprego que eu adorava. Era uma sensação de
amargura, de dor, de angustia. Cheguei a imaginar que estava perdendo o emprego
passeando na Copa do Mundo na Europa. Podia afirmar que havia aproveitado até a
última gota, seria uma história para contar para os netos, mas do que
adiantaria esta história!!!! Como seria minha vida daqui para frente??? O que
eu faria??? Qual seria meu novo emprego? Como iria viver? Mas que merda de
sensação desgraçada de dúvida.
Rubinho me fez voltar a realidade e propôs que a gente
esquecesse Budapest e fossemos para Frankfurt para tentarmos voltar para o
Brasil. Proposta aceita, arrumamos nossas coisas, voltei a ligar para amigos em
diferentes funções na empresa e assim ao menos descobri tudo que pude: a hora
da saída do Brasil, a hora da chegada na Alemanha e até a hora que a tripulação
iria sair do hotel em Main para o aeroporto. Fizemos o calculo e no dia
seguinte cedo nos despedimos dos primos e fomos para a ferroviária.
O trem era rápido e silencioso, mas estávamos tensos e
tristes, pouco falávamos. Por vezes ouvíamos comentários sobre os jogos da
copa, mas naquela altura nada nos importava queríamos apenas ter a certeza de
que embarcaríamos de volta para casa.
Na chegada em Frankfurt, vi que teríamos tempo de ir até
Main e falar com um dos comissários que eu já havia descoberto que estaria á
bordo do avião de volta. Claro que seria melhor ter alguém do nosso lado, do
que apenas tripulantes desconhecidos e como não tínhamos nada para fazer, lá
fomos nós. Eu nem sabia se a estação do trem em Main era perto do hotel, mas
achei que valia a tentativa. Deixamos as malas no guarda volume da estação
ferroviária e nos mandamos. Dito e feito pouco depois atravessamos uma ponte,
reconheci o rio, as arvores ao longe. Eu havia feito um voo para Frankfurt como
comissário e estas poucas imagens me fizeram recordar. Não tive dúvidas,
descemos na primeira estação e fomos caminhando beirando o rio, afinal era a única
coisa que reconheci. Pouco depois entramos no hotel, que alívio, eu conhecia, e
me senti um pouco em casa. Procurei na recepção o nome do meu conhecido e
ligamos. Ele estava deitado descansando antes do voo de volta para o Brasil. Me
desculpei e contei meu caso. Ele desceu até o lobby e prometeu tentar me ajudar, disse que
o comandante era gente boa, mas não tinha certeza de nada.
Na saída de volta a estação de trem Rubinho disse:
- Achei vc maluco de vir para um lugar sem saber nem o nome
do hotel, só no risco de achar algo que vc havia visto apenas uma vez na vida, mas
acho que valeu a pena, o seu amigo vai ajudar.
- Calma!!!! Não é bem assim! Estamos na mão do comandante,
quem decide é ele e sabemos que teremos competidores, só espero que não tenha
uma dúzia de comandantes ou parentes deles para embarcar, se for o caso vamos
dançar. Nesta hora, comissário e com matrícula 77 ou seja nova, é o cocô do cavalo do
bandido. Respirei, depois continuei. - O que eu realmente quero é que este comissário
fale para o comandante que nós existimos, não sei se lá no aeroporto vamos ter
a chance de falar com ele, mas conto que meu amigo me procure e diga algo para
a gente saber se podemos contar com a ajuda do comandante ou se contamos
conosco mesmo.
Pegamos nossas malas na ferroviária e rumamos para o
aeroporto. Karakas, que sensação de impotência, uma vontade imensa de ir embora
sem ter a menor ideia do que iria acontecer.
No aeroporto procuramos onde iria ser o embarque da Varig, que
visão dos infernos, faltavam 4 horas para o voo e já tinha dezenas de pessoas á
espera, talvez centenas... Que desespero. Não podia me aproximar muito de ninguém,
afinal eu tinha um “pistolão” que nem eu sabia se podia contar com ele, era
melhor não me aproximar e ter que pedir por mais pessoas que por ventura eu
conhecesse naquele momento. As horas foram passando e logo vimos quem estava de
GC, era fácil identificar os desesperados, fora a tensão de pessoas dizendo que
não estavam marcados, mas que por via das duvidas queriam ir embora de uma vez
para o Brasil. O comandante ainda não havia chegado e as pessoas já começavam a
digladiar, brigando por melhores lugares no balcão do check in.
Quando o comandante chegou logo foi cercado, pessoas
delicadas outras tensas e pouco educadas, pediam, imploravam por um lugar no
voo. Era mulher de desembargador, de militar de politico, era só pessoas de
alta patente. Nem perto consegui chegar dele. Meu amigo comissário apareceu, que alívio, e disse: - Calma ele está com
o propósito de levar todo mundo, mas nunca imaginei e acho que nem ele que estaria este
caos.
- Paulo por favor, diga ao comandante que não posso ficar aqui, não tenho dinheiro, não tenho hotel, se ele deixar, vou até na asa.
- Paulo por favor, diga ao comandante que não posso ficar aqui, não tenho dinheiro, não tenho hotel, se ele deixar, vou até na asa.
- Pode ficar tranquilo, vou falar com ele.
Daí disse ao Rubinho, viu se a gente não tivesse ido até o
hotel, a gente não teria tido a chance de encontrar com o Paulo neste caos e agora estaríamos
bem mais encrencado.
A despachante da Varig gesticulava muito e o comandante também,
como se estivessem brigando, eu precisava saber o que estava acontecendo. Eu e
Rubinho fomos nos aproximando, num empurra empurra frenético. Eu tinha que
saber o que iria acontecer. No final ouvi que era para todos os empregados Varig
e passageiros GC irem para a sala de embarque, que não era para ninguém ficar
aqui fora. Se íamos embarcar, aí era outro problema, precisávamos do cartão de
embarque para chegarmos a sala de embarque e era isto que eu precisava
conseguir naquele momento. Aí não sosseguei, fiquei o tempo todo atrás da “Enfermeira
da SS”foi como apelidamos a despachante da Varig na Alemanha, mulher grande com olhar malévolo. Se ela fosse ao
banheiro, eu ficava na porta esperando até que consegui os malditos bilhetes.
Logo
chegamos na sala de embarque e pouco a pouco foram entrando os passageiros com
assentos marcados, que inveja de cada um deles. E vai entrando
e vai entrando e pronto quando vi só sobravam pessoas como eu, querendo
embarcar sem saber se iriam conseguir. Parecia ter umas 50 pessoas. A "enfermeira da SS" repetia diversas vezes em alto e bom tom, que não teria lugar
para todos e que ela tinha que dar preferencia a pessoas que não tinham embarcado em outros dias e em pessoas de mais idade, de
matricula mais antiga, de ex-comandantes, de chefes de equipe apelidados de
vacas sagradas de tão antigos que eram. Em sumo, eu e Rubinho não tínhamos a
menor chance. Tensão exacerbada, todo mundo pressionando, inclusive eu com meu “humilde”
crachá na mão. Foram chamar o comandante, era a hora de pular no pescoço dele,
eu tinha que mostrar que eu era funcionário direto.
Ele chegou do nada e sem dar qualquer possibilidade de alguém
fazer alguma pressão ele bateu na mesa e disse: NÃO VOU DEIXAR NENHUM
BRASILEIRO EM TERRA. Karakas meu irmão que sensação agradável, como era bom
trabalhar com pessoas que entendiam o sufoco das outras. Puta que pariu,
obrigado meu Deus!!!!!
Pouco depois vem Paulo e diz, eles vão chamar um a um, vocês
serão os últimos, mas vão nem que seja no banheiro. Ainda sofremos, pois ver
todo mundo entrar e sem entender porque deveríamos ser os últimos não era fácil, parecia
que iríamos ficar. Já estávamos até contentes com a possibilidade de irmos nos banheiros, seria mais histórias para contar, mas no fim fomos nos assentos destinados ao descanso dos
tripulantes e durante o voo nos divertimos contando o sufoco que passamos para
todo mundo que aparecia na galley. Obrigado comandante pelo bom senso e pela
amizade. Obrigado por ser da família VARIG.
| Este foi apenas mais um "causo" da aviação. |




